Especialistas alertam para tendência de aumento nas queimaduras por álcool

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Maior permanência em casa pode aumentar risco de acidentes domésticos; conheça dicas para utilização segura do item de higiene

O isolamento social imposto pela pandemia da Covid-19 e o uso mais constante de álcool para higienizar as mãos acendem um novo alerta nas unidades de saúde e no Corpo de Bombeiros de Minas Gerais (CBMMG): o  aumento no risco de acidentes com o produto químico.

Recente publicação da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ) revela dado alarmante: os médicos que trabalham nos Centros de Tratamentos de Queimados (CTQs) de todo o Brasil têm identificado uma preocupante tendência de aumento de acidentes com queimaduras desde o dia 19 de março, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou a venda do álcool líquido para a população, com o objetivo de combater o coronavírus (Covid-19).

Conforme o levantamento realizado pela SBQ, de 19 de março até 15 de abril, foram identificados 122 internações em 25 unidades de atendimento – o Brasil possui 65 – por causa do uso do álcool em gel ou líquido, além dos casos ambulatoriais, de menor complexidade.

Até o momento, foram 57 internações em São Paulo, 14 em Goiás, sete no Rio de Janeiro, 11 em Pernambuco, nove no Mato Grosso, cinco na Bahia, quatro no Espírito Santo, três no Piauí, três no Rio Grande do Sul, uma no Distrito Federal, uma em Sergipe, uma no Mato Grosso do Sul, três em Minas Gerais, uma no Pará, uma em Porto Velho e uma no Rio Grande do Norte.

“A situação é alarmante. Alguns centros identificaram o dobro de internações de queimados em relação há uns 20 dias antes da norma da Anvisa. Tem gente passando álcool no corpo para combater o coronavírus e isso não se faz em nenhuma hipótese”, destacou o presidente da SBQ, José Adorno.

Estatística 

Referência nacional no tratamento de acidentados e queimados, o Hospital João XXIII mantém seção especializada, a Unidade de Tratamento de Queimados (UTQ).

Coordenadora do serviço, Kelly Danielle de Araújo reforça que o risco  é potencializado com o uso e o armazenamento de álcool em casa. “As queimaduras por fogo costumam ser as mais profundas e, por isso, as mais graves. Há, ainda, o perigo da inalação de fumaça e, por consequência, a queimadura de vias aéreas. Por isso, não recomendamos o uso de álcool para higienização da casa, tampouco para assepsia de mãos em ambiente doméstico”, ressalta.

Segundo a médica, no João XIII houve um aumento de em média 25% no número de pacientes com queimaduras de médio e grande porte do mês de março para cá, muitas vezes ocasionadas por acidentes com álcool líquido. “O uso de álcool líquido não é indicado em hipótese nenhuma para cuidado pessoal,  e o de álcool gel só fora de casa. Importante lembrar de levar o produto na bolsa e de não deixá-lo no carro pois pode haver risco de acidentes”.

Limpeza

No lugar de álcool, a médica indica como produto mais recomendado para limpeza o hipoclorito de sódio (água sanitária) na concentração de 2,0% a 2,5%. A diluição ideal é de 1 copo (200 ml) de água sanitária para 5 litros de água. O enxágue deve ocorrer após dez  minutos.

Já para assepsia das mãos, quem está em casa deve priorizar lavá-las com água e sabão, friccionando palmas, dorso, dedos e unhas por pelo menos 20 segundos antes de enxaguar. “O álcool em gel é uma medida de higienização apenas para quem está na rua e não tem água e sabão disponíveis”, reforça a médica

Ação 

Para que o álcool tenha ação de combate ao vírus, é necessário que a sua concentração esteja entre 60% e 80%. Ele tem sido indicado para limpar superfícies e higienizar as mãos. Mas os médicos afirmam que o uso pessoal deve ser feito somente quando não há água e sabão, por isso, a orientação é evitar seu uso dentro de casa.

Além disso, aumentar o número de pacientes com queimaduras nos hospitais neste momento de contingenciamento do atendimento às pessoas diagnosticadas com coronavírus vai na contramão da necessidade atual. “E tem mais: se um paciente queimado contrai o coronavírus, o tratamento torna-se ainda mais difícil”, alerta Marcos Barreto.

Além das temidas queimaduras, há outros acidentes relacionados ao álcool, principalmente entre crianças, como a ingestão ou a aplicação indevida do produto em mucosas e ou nos olhos.

Quanto ao Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, o aspirante a oficial e coordenador de Unidade do Terceiro Batalhão, Igor Daniel Costa, lembra que a corporação é responsável por atender a chamados relativos a queimaduras e outros acidentes domésticos. Ele reforça a necessidade de cuidados no manuseio e utilização do álcool. “Trabalhamos muito com a prevenção, principalmente neste período de pandemia, em que a necessidade de ir ao hospital pode representar mais riscos para o indivíduo”.

Costa lembra que o álcool é um aliado no combate à disseminação do coronavírus por permitir a higienização das mãos quando não é possível lavá-las com água e sabão. No entanto, em casa, a higiene comum é a mais eficaz e segura do ponto de vista da prevenção, inclusive de acidentes. “Em atividades na cozinha, por exemplo, é complicado usar álcool líquido ou em gel já que o material é altamente inflamável”, ressalta.

Os pais e responsáveis também devem redobrar a atenção com as crianças, que receber orientações para usar o álcool apenas com a supervisão de um adulto.

 Queimaduras

As queimaduras são consideradas um importante problema de saúde pública, que podem provocar graves sequelas e até mesmo a morte. No Brasil, as queimaduras representam os acidentes mais frequentes em crianças no ambiente domiciliar, sendo uma das principais causas de morte por trauma em crianças até os 14 anos de idade.

Entre as causas há queimaduras com líquido quente (acidente comum na cozinha); queimaduras por contato ou descarga elétrica (dedo na tomada) e com líquidos inflamáveis. No país, o álcool é o principal agente de queimaduras com líquidos inflamáveis, representando de 20% a 40% das queimaduras.

 

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